
Testemunho de um participante do CORPOEMCADEIA, partilhado através da correspondência, trocada durante a suspensão das atividades.
(…) adorava estar longe da poluição humana (…) tento ver televisão o menos possível, dói ver no que o mundo se está a transformar (…) continuo a acordar às 7:00, cachecol no abdómen e alongamentos (…) continuar a praticar o que nós aprendemos no projeto, alongar as costas, alongar os braços, as pernas e saber respeitar o limite do nosso corpo é como a escola, temos os deveres de casa para continuarmos a aprender. Confesso que esta determinação me faz tão bem, ao meu humor, ao meu sono (…) em cada treino levo um pouco de vocês comigo (…) ouço rádio sempre e crio com tudo isso o meu mundo para me abstrair desta greve que não tem sido fácil, não só para mim, pois no fundo do meu coração tenho pena da desgraça de todos os reclusos do Linhó que estão a ser violentamente maltratados (…) não conseguimos comprar coisas no bar por causa da fila provocada pela greve (…) é o pequeno quadrado onde nós fazemos as compras, um dia na semana no bar para quase 100 reclusos inativos (…) Houve brigas na fila, reclusos a passarem mal, reclusos esmagados contra a parede, reclusos a serem atirados ao chão pelos outros(…) o responsável do armazém não fez o carregamento, fazendo faltar alimentos pelos quais nós pagámos e acabámos por não ter nada diferente para comer no Natal e no Ano Novo. E nesta luta violenta na fila do bar, os senhores guardas e o Chefe X estavam a achar divertido e riam-se com tudo o que se estava a passar. Mesmo com dinheiro, nem papel higiénico, nem água conseguimos comprar(…) mas tudo se complicou pela falta de água. A água não estava a sair, quem fez xixi ou cocó já não podia descarregar e ficámos o dia todo sem resposta(…) os reclusos dormiram com o cheiro da urina e das fezes na cela (…) No dia 17/12, quando amanheceu, às 10:00 começaram a abrir-nos para ir buscar um balde de água, água que não era aconselhável beber, buscávamos água onde tem um cheiro nauseabundo a cocó de rato e xixi de rato. Nesse dia, a água não deu para todos. No dia 17/12(…) fomos ao pátio e deveríamos retornar às 16:30, nós, pacificamente e sem motim – ninguém fez motim –, só não entrámos porque não havia água. Então prometeram-nos 1,5 l de água como se fosse resolver o nosso problema de ter água para beber, lavar os dentes, tomar banho e deitar na sanita. Muitos começaram a fazer xixi numa garrafa e a deitar no pátio e, no desespero, houve um recluso que fez cocó num saco plástico e atirou pela janela (um recluso foi tirado da ala B e foi de castigo para a C por fazer isso). O guarda viu nas câmaras e, enquanto levavam o recluso, outro recluso foi até ao pátio, buscou o saco com cocó e mandaram-no junto com os pertences do recluso. No dia 18/12 não tivemos o 1,5 l de água que nos prometeram e o reservatório, com filas enormes, era o que nos servia até não haver mais água. No dia 19/12, novamente nos recusámos a entrar e, por isso, 1,5 l de água foi entregue e veio um trator onde buscamos apenas um balde de água. Foi uma semana terrível e, em uma semana, só tivemos 3 litros de água viável para beber. Foi o pior Natal e Ano Novo de sempre(…) Foi um fim de ano em que fomos humilhados em todos os sentidos! Onde fica o amor ao próximo? Onde ficam os direitos humanos do homem? Temos que nos alimentar com o pouco que nos dão, pois as refeições que vêm da cozinha não respeitam a quantidade de comida que tem que chegar até nós(…)Não só somos humilhados e maltratados, como a violência física contra nós cresceu. Eu vi reclusos a serem gravemente torturados pelos guardas no fim do corredor onde não há câmaras (…). Os reclusos são agredidos por diversos guardas e eu vi-os com dores físicas e mentais depois destes actos. E quando uma avó liga preocupada com o neto (…), a sua educadora, que é para ajudar o recluso, diz que é mentira, enquanto o recluso está cheio de hematomas pelo corpo. Este tratamento violento está a crescer no Linhó. Nesta greve, o recluso Y discutiu com um guarda pela manhã e, logo depois, desaparece e, quando aparece, está com os olhos roxos pelas agressões físicas que sofreu (…) As coisas no Linhó pioram a cada dia e estamos a ser psicologicamente torturados com tudo isso (…) Até agora, eu não entendi o motivo desta greve, pois os mais prejudicados o ano todo somos nós e, com a falta de água, tudo foi ainda mais prejudicial para nós. Não tivemos nenhum órgão governamental ou alguém da Assembleia da República a zelar por nós que estamos cá. E não pedimos muito, a nossa vida em reclusão já é uma desgraça e parece, nos últimos tempos, que este E.P. se transformou num verdadeiro inferno em todos os sentidos. Cá dentro não existem direitos e muito menos democracia, pois se buscamos melhorias, o tratamento violento que recebemos acaba por calar a nossa voz(…) Eu nunca vi tanta humilhação em todos estes anos em reclusão, nunca vi guardas lutar por uma greve alcoolizados. E em cada palavra foi dita a verdade(…) os criminosos não somos apenas nós (…).
