CORPOEMCADEIA: “É isto que a arte faz – desarruma a casa, desarruma papéis”.

Catarina Câmara, a então bailarina com passagem por Direito, sempre sentiu que a dança era um meio para chegar a outros lugares e, após realizar a formação em psicoterapia Gestalt , há oito anos, colocou-se a questão do estágio. Diz-nos que, por algum motivo, sempre se sentiu atraída por aquilo que é subterrâneo, que é tabu e “espelha de uma forma muito expressiva, dinâmicas que são as nossas”. De forma muito intuitiva decidiu fazer o estágio Gestalt na casa que “está fechada de dentro para fora e de fora para dentro” – a prisão.

CORPOEMCADEIA  é o nome do projeto que foi sendo gerado na triangulação entre a arte, a cidadania e o desenvolvimento pessoal e interpessoal de Catarina Câmara, que pretende mover 12 corpos do Estabelecimento Prisional (EP) do Linhó, através da “experimentação artística, com enfoque na dança”, em “partilha e influência recíproca com os processos criativos da Companhia Olga Roriz, o modelo de intervenção em Terapia Gestalt” e com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian através da iniciativa PARTIS – Práticas Artísticas para Inclusão Social.

“São projetos que, por um lado, primam pelo rigor artístico – que não seja só um processo terapêutico ou de inclusão social, porque isto é importante, e ao mesmo tempo, que estejamos a trabalhar aquilo que é a singularidade de cada comunidade. No fundo, o que se pretende sobretudo é permitir que as pessoas desta comunidade ganhem espessura na sua voz, no seu corpo” – afirma a bailarina.

A autora do projeto acrescenta ainda que não se trata de empoderamento, porque, neste sentido, descreve o conceito como “um bocadinho trickie” pois não pretende ser a pessoa que vem do alto do seu saber e do seu poder para transmitir ferramentas artísticas e criar a possibilidade de que sejam desenvolvidos recursos psicoemocionais, até porque aprende e suga imenso das pessoas com quem trabalha e partilha.

De um projeto que decorre entre abril de 2019 e dezembro de 2021, com aulas de “dança e expressão artística, sessões psicoeducacionais, mostras informais, processo de criação coreográfica e diversas apresentações públicas de um espetáculo com a assinatura da coreógrafa Olga Roriz”, surgem “relações improváveis” no EP Linhó, baseadas na ideia de família e “é isto que a arte faz – desarruma a casa, desarruma papéis”.

Gerador (G.) – Porquê o estabelecimento prisional do Linhó?

Catarina Câmara (C.C.) – Não houve escolha nenhuma, foi-me imposto, mas é espetacular. Na população prisional tens várias camadas. Interessava-me saber qual era a população mais carenciada dentro dos estabelecimentos prisionais. Eu tinha um bocadinho esta ideia de que as mulheres eram mais prejudicadas, talvez, por esta relação com as questões de género. Era um bocadinho mais sensível à causa feminina, mas depois fui percebendo e a Regina Branco (Assessora de Celso Manata — Antigo Diretor-Geral da Reinserção e Serviços Prisionais) disse-me que há gente nos estabelecimentos prisionais que não tem praticamente acesso a projetos nenhuns. Por exemplo, o Estabelecimento Prisional (EP) do Linhó tem gente muito jovem, cheia de energia e não se passa nada lá dentro. Então, decidi trabalhar com quem tem menos acesso a projetos porque há alguns projetos em atividade e normalmente eles são direcionados para pessoas que estão já em regime de transição — nesta ideia da ressocialização, de pegarem em pessoas que estão a sair da prisão para lhes dar mais “ferramentas” para entrarem em meio livre.

A nossa ideia era: “Como é que tu constróis um projeto de vida na prisão?”, há pessoas que têm cinco, dez, quinze, vinte anos para cumprir e isto é qualquer coisa que nos interessa, ainda assim é uma vida que merece ser vivida com dignidade, daí nós trabalharmos com homens condenados em penas iguais ou superiores a seis anos – que são consideradas penas médias e graves. O EP Línhó permitia-nos isso porque é uma prisão com uma certa espessura a esse nível. Tínhamos também uma questão com comportamentos aditivos – existem pessoas que não estão em condições físicas para integrar e precisam de um acompanhamento mais personalizado porque nós trabalhamos com o grupo em dinâmicas ágeis, para além disso, não tínhamos mais critérios, podiam entrar todos desde que o desejassem.

G. – Qual a influência da prática artística da Companhia Olga Roriz, na forma como o projeto é realizado no EP?

C.C. – Este projeto leva a dança como é feita na Companhia Olga Roriz. É um método criativo e de composição de espetáculo e a Olga, de facto, tem uma forma de criar particular. Há esta ideia da família e a Olga costuma dizer que quando está a criar é como se fosse natal durante quatro meses – o tempo da criação. Existe uma prática técnica do bailarino de se manter em forma, sobre a flexibilidade e a postura, por exemplo, mas não é uma companhia de reportório, o que quero com isto dizer é que ela lança propostas de improvisação e com base nisso e no tema da peça, nós respondemos criativamente. Era isto que nós queríamos aplicar, porque isso permite-nos o tal contacto com a nossa história. O bailarino da Companhia Olga Roriz tem de estar preparado para ir para o palco, olhar para si próprio, não ter medo de olhar para a sua história, a sua visão sobre o mundo e estar preparado para dar muito de si a esse nível.

No CORPOEMCADEIA há um primeiro momento que se chama “Ocupar o Corpo” que fui eu que dei e para mim era importante que nessa primeira fase fosse só uma pessoa, porque os rapazes estão muito habituados a gente a entrar e a sair e era importante construir um grupo forte, sólido e criar ali um clima de previsibilidade. Numa primeira fase fui eu mais uma terapeuta, estivemos a trabalhar ferramentas de corpo, aprender a mover, a andar no espaço, ocupar o espaço, ocupar o corpo, qualidades de movimento, o tempo, o ritmo e o contacto-improvisação – descobrirem uma linguagem mas, no fundo, um mix entre vamos nos conhecendo, criar um território de confiança. Eles são muito fortes, muito musculados, na prisão têm uma prática quase militar, era preciso amaciar aqueles músculos. No fundo, eu dei algumas bases da dança contemporânea. Isto aconteceu durante oito meses, criámos um laço forte e então eles já estavam preparados para serem mais autónomos e para terem mais informação – esta é a altura em que entram os outros bailarinos da Companhia Olga Roriz – André de Campos, Bruno Alves e a Sara Carinhas, que também são professores.

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