INFORMAÇÃO | Festival Quartieri di Vita- Life Infected with Social Theatre

Festival Quartieri di Vita- Life Infected with Social Theatre
Residência Artística em Nisida ( Centro de Detenção Juvenil de Nápoles) com Catarina Câmara

Durante a residência em Nápoles, pedi aos participantes do CORPOEMCADEIA que oferecessem algumas palavras aos jovens detidos em Nisida, sobre o valor e o impacto da dança nas suas vidas.

Aqui partilhamos essa correspondência que foi valiosa no processo de entrega e criação daqueles rapazes
e também 2 excertos musicais construído a partir das histórias e vozes de todos os que estiveram envolvidos neste encontro “mama mia!”

Catarina Câmara


Olá, rapazes 
 
Passo um instante pelo écran para vos deixar uma palavras saudosas e cansadas e desejar-vos uma boa semana.
Curiosamente, apesar da distância, tenho-vos sentido extraordinariamente presentes e cada momento vivido nesta cidade bela e bruta, eu tenho vontade de partilhar convosco.
 
Uma prisão é uma prisão mas a prisão de Nisida fere os sentido pela sua exuberante beleza. Fica numa ilha com vista para um mar de  azul profundo, chamado mar Terreno (tive de ir ver ao Google) e também para as montanhas do Vesúvio, um vulcão que ainda está activo e que, não sei se se recordam, foi o que destruiu a cidade de Pompeia. É irónico estar-se preso num lugar tão belo. A natureza rompe em todos os lugares e mistura-se com as paredes grafitadas da prisão, (desenhos incríveis feitos por artistas de rua). Ao mesmo tempo sente-se uma grande solenidade. A prisão era um mosteiro  e tudo invoca essa gravidade e austeridade. Dei por mim a pensar, que é fácil enlouquecer num lugar como este, porque te atira para fora do tempo e do espaço. Eu só estive ainda dois dias e sinto que é preciso ter grande estrutura emocional e psíquica para não sermos engolidos pela solidão daquele lugar. Estar preso numa ilha é estarmos duplamente presos. Pensava na diferença do Linhó e a sensação que tive, foi que o Linhó é uma prisão que te põe em estado de sobrevivência, ali, a calma e o silêncio tocam numa nostalgia tão funda que é como se vivesses debaixo de água, sem saber se podes ou não respirar. 

Os miúdos (..), têm uma vergonha monstruosa de fazer um movimento diferente (..) no final eu faço um círculo, respiramos, escutem o vosso coração,  peço palavras e eles abrem-se:  mamã, irmã, os cereais do pequeno almoço,  o cheiro dos livros da escolha.. são uns bebés perdidos e uns homens feridos. Tenho vontade de os embalar e de os abanar. Tem sido muito duro, cada pequeno gesto é uma enorme conquista. E no final, virem ter comigo e dizerem “a domani (até amanhã) … eres brava” ou “Catarina cocaína” são sinais de que vamos tecendo fios frágeis e invisíveis, de cumplicidade e capacidade para arriscar (…) comecei a fazer uma coreografia com eles a partir da gestualidade dos gestos de um rapper (não me lembro do nome)… tenho de partir do lugar onde estão… vejam só … um dos exercícios que fiz foi criar movimento a partir de situação de levantar da cadeira… estão todos afundados, preguiçosos  e o exercício era só, levantar e sentar e isto já foi brutal…. penso em vocês, na vossa qualidade artística e humana, onde chegámos juntos, o que descobrimos nesta aventura do Corpoemcadeia e imagino-vos ali no meu lugar, tentando trazer luz e movimento para aqueles rapazes-fantasmas e não duvido nem um segundo, de que saberiam como acender aqueles corações…. Quando penso em partilhar esta minha experiência com vocês, (muito desafiante pois tenho de fazer uma mostra no próximo sábado e eles parecem bonecos de cera), sinto-vos como colegas, pares, pessoas que adquiriram um nível de entendimento sobre o corpo e o valor do movimento que a grande parte das pessoas que se pensam livres não têm. Quanto mais longe forem na vossa dança, mais livres serão. Nunca se esqueçam disso. 
De resto, a comida é óptima, a cidade um caos, é preciso deitar-me na estrada para os carros pararem, os napolitanos são mal-educados, atiram o lixo para o chão,  os homens desinteressantes, todos com o mesmo penteado, as mulheres bem arranjadas, igrejas monumentais em cada esquina, prédios a cair, grafittis, mar e vulcões… uma explosão de imagens , ruídos e cheiros…

Queria pedir-vos algo, que juntos escrevessem uma carta para estes rapazes, podem se frases, ideias, falando sobre o poder da dança, a vossa experiência de corpo, a importância de se mostrarem ao público. pode ser frases de incentivo, partilhas, comentários, perguntas… estava a pensar que até podia usar as vossas palavras no espectáculo… O que acham? Ajudam-me nesta loucura que é pôr 7 lobos feridos e cheios de medo a dançar com prazer e coragem? 
 
Tenho muito orgulho de vocês e do que construímos. 
Abraço imenso. 
Cat, quase ai. 


Resposta dos bailarinos CORPOEMCADEIA
CARTA LINHÓ _ NISIDA (NÁPOLES)

Aceita o que tens à tua frente, o que não podes mudar, mas conhece-te a ti mesmo e dá valor aos que te rodeiam. Se és um guerreiro nunca desistas, o que não mata fortalece, muita esperança, e um dia chegas lá. aquilo que deus te dará só de ti dependerá. Força na guerra. Tenta imitar a forma de um robot se movimentar, não penses muito. Experimenta movimentos, relaxa e desfruta.

A arte da dança consiste em todos os movimentos que fazemos diariamente, apenas temos de descobrir a maneira para nos libertarmos. a minha experiência foi boa. abriu-me mais a cabeça. No início estava demasiado focado naquilo que os outros iam pensar, e com o tempo fiquei mais relaxado. Não levar as coisas demasiado a sério ajuda. Quando voltas à cela levas o corpo relaxado ou, se calhar, cansado.

O meu corpo está preso mas a mente é livre. Foco, fé e força. Acredita sempre em ti e nunca desistas.

Na minha opinião a dança dá-nos coisas boas, fisicamente e mentalmente. Com a dança só temos a ganhar: experiência de movimento, outra visão para as coisas do dia-a-dia, mais maturidade, mais responsabilidade e respeito pelo grupo. Perdemos a vergonha e ganhamos nova vontade de aprender mais. “Ontem fui trovoada, hoje sou chuva, amanhã serei sol.” Com isto quero dizer que ontem errava, porque agia sem pensar; hoje penso duas vezes antes de cair no erro; amanhã não errarei.

O movimento fez-me libertar coisas que eu guardava só para mim e que me isolavam, tal como a ilha em que vocês estão. O movimento fez-me ver que apesar de ser uma ilha há movimentos, há tremores de terra. O mexer sozinho. O mexer com o outro, em conjunto. Em ambos os casos há libertação, sem pudor. A libertação pelo movimento, o mais natural que existe para o ser humano. Podemos estar cada um na sua bolha, mas movemos. Tivemos aulas mais interessantes que outras, ou em que o corpo estava mais disponível, mas estávamos lá com a vontade de ver o que é que poderia sair dali. É diferente vir aqui ou ir simplesmente para o pátio. Eram as segundas da libertação. Vínhamos libertar coisas mal resolvidas lá de dentro, da opressão e repressão. As semanas começaram a passar mais depressa. Porque as segundas eram especiais. E este projeto fica cá dentro de nós, deixamos de nos focar só no facto de estarmos presos. Libertem-se e conheçam-se através do movimento.


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